Entrevista Fernanda Montenegro

Teatro Brasileiro
Fernanda Montenegro

 
Um domingo chuvoso, cinzento, muito frio, senti saudade de Fernanda Montenegro e me aqueci pensando nela. Lembrei-me de alguns momentos nossos e achei por bem, colocar tudo no papel. Nem me passou pela cabeça que eu estava “dialogando” com uma das atrizes mais talentosas e importantes do mundo.
S. Fernanda, lembra quando participei com você, em 1973, da comédia de Louis Verneuil “O amante de Madame Vidal”, lá no Teatro Glória?
F. Como poderia esquecer... Jacqueline Laurence, Otávio Augusto, Labanca, Fernando... a gente se divertiu por mais de seis meses: Foi ou não foi?
S. E eu comento com boca cheia com todo mundo o que você fez comigo.
F. Conta-me.
S. Com o pretexto de não cristalizar o seu personagem, volta e meia me pedia para improvisar, tirar um coelho da cartola, te pegar desprevenida. Além disso você criava situações hilariantes e o espetáculo ficava sempre lá em cima, eletrizante, mas só o que eu quero deixar registrado aqui é que você me provocava em cena, improvisava, fazendo tudo para eu brilhar e quando o público ria de mim, você ficava de uma felicidade atroz. Uma vez – eu era o mordomo de sua mansão – servi o seu chá e em vez de açúcar na xícara, coloquei sal e olhei com cumplicidade para o público. Você deu um gole, sentiu o amargor, cuspiu o liquido fora, fez uma expressão tão engraçada que a plateia, que tinha me aplaudido, dobrou os aplausos para você.
F. Mas Simon, não fiz nada de mais. Quanto mais o público aceitar o seu trabalho todos nós sairemos ganhando. Teatro é equipe. Jamais em toda minha existência testemunhei um espetáculo onde havia um ator maravilhoso, cercado de dez artistas medíocres.
S. A única vez que você foi tolinha, ingênua, infantil, foi em 1998 quando protagonizou o filme “Central do Brasil”, recebeu uma batelada de prêmios internacionais, entre eles o “Urso de Prata” no Festival de Berlim, Festival de Cuba e foi perder tempo em ir a Hollywood e “disputar o “Oscar”, careca de saber que nos Estados Unidos são todas cartas marcadas”. Não entendi...
F. E você acha que fui aos estados Unidos achando que tinha alguma chance? Fui me divertir, ver gente talentosa, roupas bonitas, aquele ambiente feérico e falso aquele montão de sorrisos amarelos. Penso que nem aqui no Brasil alguém acha o Oscar algo sério. Posso lhe fazer uma pergunta? Quem ganhou o Oscar de melhor atriz no ano de 2009?
S. E eu que vou saber?
F. Viu? (Risos) Nos estados Unidos as coisas são assim: Ganha mais quem investe mais e nos últimos anos é difícil se investir em qualidade.
S. Fernanda, quer saber o que Paulo Autran exclamou quando mostrei a ele aquela fita do nosso programa, lá na Rádio Jornal do Brasil, quando você deu aquele show de bola, acompanhado de Rosinha de Valença, cantando “Flor amorosa”?...
F. Ah foi mesmo... eu cantava esse chorinho na peça de Millor Fernandes “Computa, computador, computa”, dirigida por Carlos Kroeber, em 1971... fui dar uma entrevista a você que fez uma ursada comigo e Rosinha e nos obrigou a improvisar ali, na hora, sem ensaio e sem nada. Aliás, me disseram, muita gente ligou pra mim dizendo que você apresentou nosso chorinho no programa de Jô Soares... O que o Paulo Autran disse?
S. Fernanda é páreo duro com Elis (Regina) e Elizabeth (Cardoso).
F. Ah, o negócio é rasgar seda, é? Pois bem, o Paulo só perde mesmo no palco é para você. (Risos)
S. Fernanda, gosto de ver você rir, em cena e fora dela.
F. Mas não sou a única... Até Henriette Morineau já riu em cena não resistindo às brincadeiras de Paulo Autran interpretando “Coriolano”, um texto de Shakespeare... você foi testemunha. Eu me esbaldo em cena... Lembra quando estávamos naquela livraria do Aeroporto Tom Jobim, conversando sobre o ex-presidente Lula...
S. Ele afirmou, categoricamente, que sua mãe nasceu analfabeta...
F. (Rindo) e eu comentei que ele não devia improvisar, tinha que pensar, pensar não...
S. Isso seria pedir demais!
F. ... deveria, antes, estudar o texto.
S. Aí eu comentei: Ele diz coa a maior desfaçatez “Comi três azeitona, quatro empada e cinco croquete” e segundo o humorista André Damasceno, isso não era certo não...
F. Era uma maneira singular de usar o plural. (Risos)
S. Uma cigana me revelou que você vai morrer com 106 anos. Seu velório vai ser concorrido?
F. Só se eu estivesse na novela das oito. (Risos)