A "Piazza dei Miracoli"

 
A Piazza dei Miracoli é uma grande área da cidade de Pisa, reconhecida como um dos principaiscentros da arte medieval do mundo, e situa-se no coração da cidade. Em parte, pavimentada, enoutra, gramada, é dominada por quatro grandes edifícios religiosos: a Catedral, a torre inclinada, o Batistério e o Cemitério. Em 1987, a praça inteira foi declarada Património Mundial da Humanidade, pela UNESCO.
Com extraordinária eficácia, a frase "Piazza dei Miracoli" (Praça dos Milagres), alcunhada por Gabriele Annunzio (1863-1938), sintetiza o deslumbre e a admiração que, durante séculos,surpreenderam[apreendido] aqueles que, após passarem pela Porta, que ladeava[aos lados d] a Via Santa Maria, abarcavam, numa única visualização, a brancura pura dos monumentos que se erguem sobre o verde exuberante do gramado.
Fica-se igualmente maravilhado pelo total isolamento deste grupo de monumentos: a grande área em quese elevam os edifícios sagrados encontra-se realmente isolada, no canto noroeste. O espetacular complexoparece olhar, com certo orgulho, a distante agitação diária da cidade. Mas, uma cuidadosa interpretação histórica e a contribuição de algumas descobertas arqueológicas recentes devolvem à Catedral toda a sua centralidade, com base na escolha do site original, preservado através dos séculos, como o coração da vida religiosa e civil de Pisa. 
Para compreender, globalmente,a sua maravilha, devemos nossituar na dimensão marítima que, desde os tempos etruscos,criou a grande a cidade, localizada em tal posição geográfica favorável ,que a colocou no centro de uma rede de rotas marítimas, fluviais e terrestres, com o interior que ofereceu vasta gama de produtos, não apenas agrícolas, mas igualmente, madeira e pedras para construção, favorecendo a introdução de significativas estruturas produtivas.
O rio Auser─ que já não existe ─ beirava a área da Praça, primeiro ao longo da borda setentrional, então dobrando em direção Sul para se lançar no Rio Arno. No Auser, há algumas centenas de metros , perto da estação ferroviária de Pisa-San Rossore, encontrava-se implantado um porto fluvial que funcionou arduamente durante mil anos, desde o período etrusco até a época romana tardia, e que ressurgiu depois de um período extremamente longo de esquecimento, no final do século XX. É r redescobrindo esta mais antiga história que a localização da Catedral perde sua marginalidade aparente, para assumir um significado novo e mais completo: atendendo ao processo de cristianização de Pisa que, de acordo com alguns estudos recentes, parecia vir do mar, o site adquire uma nova centralidade, que hoje não é mais perceptível, relacionado-se ao sistema portuário nas proximidades que se manteve ativo desde o século V A.D..
Assim, este foi o local escolhido para a construçãoda Igreja de Pisa desde suas origens, que são consideradas, por unanimidade, anteriores à paz de Constantino, de 313. Mas os mais antigos edifícios sagrados foram derrubados com o tempo e os monumentos que podemos admirar hoje datam de meados dos séculos da idade média, quando, no auge de sua glória,após inúmeros triunfos marítimos, Pisa assegurava a supremacia em campo regional e internacional, indo tão longe, até reivindicar para si o papel de uma 'Nova Roma'. Tal orgulho, sem limites e semconscientização, deu à luz o plano para reconstruir, nas proximidades de uma antiga catedral, redescoberta durante recentes escavações arqueológicas, a nova Igreja de Santa Maria, fundada em 1064, ano que coroa o triunfo de Pisa contra os sarracenos, em Palermo, e cujos espólios foram parcialmente investidos na construção da nova Igreja, intitulada“Templo de mármore branco como a neve” pelo autor da inscrição fúnebre, dedicada a Buschetto, o arquiteto que aprojetou,e que representava a Comunidade civil e religiosa; era preciso refletir sua fama e poder aos olhos do mundo: epígrafes foram colocadas na fachada para comemorar as vitórias marítimas principais; nas laterais foram montados pedaços de monumentos romanos para realçar a grandeza de Pisa,na qualidade de «outra Roma»; a fachada foi ricamente decorada com características ornamentais, de inspiração árabe; o telhado foi adornado com o grifo magnífico de bronze, de fabricação islâmica, agora em exposição, no Museo dell'Opera (substituído por uma cópia original), proveniente, talvez, da Espanha e, provavelmente, chegou a Pisa junto aos despojos de alguma expedição militar. 
 O batistério, fundado em 1152, e projetado por Diotisalvi, foi construído em frente à Catedral, alinhado com a sua fachada: um edifício que, de acordo com os estudos mais recentes, está profundamente impregnadocom as memórias do Santo Sepulcro de Jerusalém, repropondo a questão das influências e relações entre a arquitetura de Pisa e do Oriente. A cidade inteira esteve envolvida na construção do edifício, projetado para hospedar a fonte batismal onde o povo de Pisa recebia o Batismo,para fazer parte do povo cristão: um cronista, contemporâneo de Bernardo Maragone, conta que um dos oito pilares provenientes da ilha de Elba e da Sardenha, colocado dentro do batistério em 1163, foi levantado pelos habitantes do bairro da Porta Aurea.
O plano redondo do batistério foi retomado em 1173 pelo anônimo projetista da Torre de sino (BonannoPisano, talvez? ou ainda, mais uma vez, magister Diotisalvi?). Um trabalho incomum pela sua redondidade, que lembra as curvas das absides da Catedral, compartilhado aos outros monumentos da Praça, com motivos recorrentes dos pilares e pequenos arcos. Logo após a conclusão, o mais famoso monumento da cidade foi afetado pela “doença misteriosa”(sua inclinação), que o tornou famoso no mundo inteiro e ao mesmo tempo, deu-lhe graves problemas de estática que foram resolvidos após mais de oitocentos anos de apreensão, de temor pela sua queda,graças à obra realizada na década de 1990.
Com a Torre do sino, o grupo de monumentos da Catedral estava completo; mas no século XIII, enquanto as obras continuavam e os edifícios enriqueciam-se com maravilhosas obras de arte, dois novos edifícios foram adicionados à área da Praça, que denotamsua composição atual, ambos nascidos pela decisão do grande Arcebispo de Pisa, Federico Visconti. O Hospital Novo foi construído ao Sul, imposto à cidade, em 1257, pelo Papa Alexandre IV, como símbolo de reconciliação com a Sede Apostólica, após quinze anos de crise, tendo sido cogitado para dar assistência aos peregrinos, aos pobres e aos doentes: este é o grande edifício que hoje hospeda o Museu das Sinópias (Desenhos preparatórios para a realização de um afresco, em que se utilizava um pigmento vermelho extraído de uma terra dessa cor, conhecida como “sinopis”). Em 1277, à frente deste edifício, um novo cemitério começou a ser construído para agruparos túmulos que até estavam espalhados ao redor da Catedral. Este plano levou à construção do cemitério, de um extraordinário claustro quadrangular, que, com a sua fachada de mármore, conclui, no lado norte, a "Piazza deiMiracoli". O Claustro havia sido concebido para o enterro dos mortos e o convite aos vivos para refletirem, sobre a vida terrena e sobre a vida eterna, ,através da série magnífica de afrescos, cujos esboços preparatórios, chamados "sinópias" encontram-se preservados no Museu.